A cerâmica marroquina é a recordação que as pessoas mais lamentam ter comprado mal e de que mais gostariam de ter comprado mais. Um tagine escolhido à pressa na última tarde acaba quase sempre por ser um enfeite pintado que estala na primeira vez que encontra a chama. Um prato bem escolhido pode durar mais do que você.
Este guia explica onde se faz realmente a cerâmica marroquina, como distinguir as principais tradições, como reconhecer uma peça feita à mão de uma decorada à máquina, a questão do vidrado com chumbo que ninguém lhe vai levantar no souk, e como a levar para casa inteira. Somos um operador turístico marroquino e levamos visitantes a estas oficinas com regularidade.

As quatro tradições que vale a pena conhecer
Quase tudo o que verá à venda vem de um destes quatro sítios e, assim que os souber distinguir, o mercado inteiro passa a fazer sentido.
Fez: azul cobalto sobre branco
A cerâmica marroquina mais reconhecível: azul cobalto intenso pintado sobre um vidrado branco de estanho, em padrões geométricos e florais muito densos. Fez produ-la há cerca de mil anos, e esse tom específico, o bleu de Fes, é a assinatura da cidade. As melhores peças são pintadas à mão livre, e por isso não há duas exatamente iguais.
Fez é também o centro do zellige, que é um ofício completamente diferente: barro vidrado cortado à mão com cinzel em pequenas peças geométricas e montado de face para baixo formando um mosaico. Se vir fabricar uma só coisa em Marrocos, veja um maalem a cortar zellige. Parece impossível.
Safi: a cidade dos oleiros
Na costa atlântica, entre El Jadida e Essaouira, Safi é o maior centro oleiro do país, com uma colina inteira, a Colline des Potiers, ocupada por oficinas e fornos. O trabalho de Safi é mais colorido do que o de Fez: policromia em turquesa, verde e ocre, muitas vezes em peças grandes de servir. Se comprar cerâmica marroquina em qualquer ponto do país, boa parte foi feita aqui.

Tamegroute: o vidrado verde
No vale do Draa, a sul de Zagora, os oleiros de Tamegroute fazem algo que não se parece com mais nada em Marrocos: barro grosseiro e pesado sob um vidrado verde espesso, irregular e luminoso, colorido com cobre. As peças cozem em fornos alimentados a palmeira, o vidrado acumula-se e escorre, e não saem duas iguais. Na última década tornou-se moda no estrangeiro, o que fez subir os preços, mas na origem continuam a fazê-lo umas poucas famílias nas mesmas oficinas de sempre.
Salé e Mequinez
Salé, do outro lado do rio em relação a Rabat, tem uma longa tradição oleira e produz tanto peças tradicionais como contemporâneas. Mequinez faz peças sólidas de uso diário. Nenhuma das duas tem o renome de Fez ou Safi, o que por vezes significa melhores preços para qualidade equivalente.
Como se faz
A sequência é praticamente a mesma em todas as oficinas, e vê-la explica de imediato as diferenças de preço.
O barro é extraído localmente, limpo e deixado a repousar. A peça é levantada na roda — nas oficinas mais antigas, uma roda de pé movida pelo próprio oleiro — ou moldada à pressão para formas como a base de um tagine. Depois seca devagar à sombra, porque secar depressa ao sol racha-a.

A primeira cozedura endurece o barro em chacota. Segue-se o vidrado, a decoração é pintada à mão e a peça vai a uma segunda cozedura para fundir o vidrado. O zellige acrescenta mais um passo: o azulejo já cozido e vidrado é cortado a cinzel, à mão, nas peças individuais que compõem o desenho.

Cada uma destas fases é um ponto onde se pode cortar caminho. As duas que mais lhe interessam como comprador são como foi aplicada a decoração e o que levava o vidrado.
Feito à mão ou decorado à máquina
Boa parte do que se vende como cerâmica marroquina artesanal é de fábrica e com decalcomania. Nenhuma das duas coisas é desonesta em si — um prato estampado continua a ser um prato bonito — mas deve saber pelo qual está a pagar.
- Procure a variação. Os padrões pintados à mão oscilam. As linhas mudam de espessura, os motivos variam ligeiramente de tamanho e uma cercadura repetida nunca se repete na perfeição. A decoração mecânica é impecável e idêntica peça a peça.
- Vire a peça. O trabalho artesanal costuma mostrar os anéis da roda, um pé por vidrar ou mal acabado e muitas vezes a marca do oleiro. Uma base perfeitamente lisa e uniforme sugere molde e fábrica.
- Toque na superfície. O vidrado pintado à mão tem um ligeiro relevo onde o pincel carregou. Uma decalcomania fica completamente plana sob o vidrado.
- Olhe para a pilha. Se uma loja tem quarenta peças idênticas, não foram pintadas uma a uma.
Os tagines: onde mais gente se engana
- Um tagine de cozinha é liso, pesado, normalmente por vidrar ou vidrado apenas por dentro, e muitas vezes pouco bonito. Foi feito para o lume.
- Um tagine decorativo é o pintado, brilhante e bonito. É uma travessa de servir e um objeto de decoração. Ponha-o sobre a chama e vai estalar, muitas vezes à primeira.

Se quer um em que possa mesmo cozinhar, pergunte diretamente e espere que lhe mostrem algo bem mais simples. Cure-o antes da primeira utilização: mergulhe-o em água algumas horas, esfregue o interior com azeite e aqueça-o devagar. Cozinhe sempre em lume brando, use difusor sobre gás e nunca o passe do frigorífico diretamente para a chama. O barro cede por choque térmico mais do que por qualquer outra razão.
A questão do chumbo
Vale a pena dizê-lo com clareza, porque quase mais ninguém o fará.
Os vidrados tradicionais do Norte de África e do Mediterrâneo usaram historicamente compostos de chumbo, que dão um acabamento brilhante, vidrado e de baixa temperatura. O chumbo pode migrar de um vidrado que não foi cozido a temperatura suficiente, e migra mais depressa com alimentos ácidos: limão, vinagre, tomate, vinho e sobretudo limão em conserva.
A posição prática é simples. Compre à vontade e use as peças decorativas como decoração: pão, tâmaras, frutos secos e coisas secas não levantam problema. Se quer cerâmica de que vá comer todos os dias, ou em que vá cozinhar comida ácida, peça expressamente vidrado sem chumbo ou próprio para alimentos. As melhores oficinas e os produtores que exportam usam-no e dir-lhe-ão. Isto não é razão para evitar a cerâmica marroquina. É razão para fazer mais uma pergunta.
Quanto pagar e como regatear
Os preços variam imenso com o tamanho, a qualidade da pintura e o sítio onde está. Uma tigela pequena pintada à mão é barata em qualquer lado. Uma travessa grande de Fez finamente pintada é uma compra séria, e deve ser. O verde de Tamegroute subiu bastante desde que virou moda.
No souk conta-se que regateie; numa oficina, muito menos, porque quem dá o preço é muitas vezes quem fez a peça. Duas regras que funcionam: decida quanto vale para si antes de perguntar o preço, e nunca comece a regatear algo que não tenciona comprar. Se levar várias peças, peça preço pelo conjunto em vez de negociar uma a uma.
Como a levar para casa
- Compre numa loja que embale bem, e veja como o faz. Papel de jornal sozinho não chega para um prato.
- Ponha-a no meio da mala de porão, embrulhada em roupa, longe das bordas e dos cantos: é aí que a mala apanha as pancadas.
- As peças grandes ou pesadas compensa enviá-las. As oficinas estabelecidas de Fez e Safi enviam com frequência e podem tratar disso. Combine o custo e peça por escrito.
- As tampas dos tagines são o que pior viaja, por causa do puxé. Embrulhe a tampa separada da base.
Onde a ver fazer
- Fez. As oficinas de cerâmica e zellige do bairro de Ain Nokbi, fora das muralhas da medina, onde numa só visita se vê tornear, pintar e cortar azulejo. Qualquer um dos nossos tours desde Fez pode incluí-las.
- Safi. A Colline des Potiers, com os fornos a trabalhar ao ar livre.
- Tamegroute. As oficinas do vidrado verde e os fornos antigos, no vale do Draa a caminho de Zagora. Um tour de dois dias ao deserto de Zagora passa por lá.
- Marraquexe. Muita venda e pouca produção. Compre aqui se tiver pouco tempo, mas não conte vê-la fabricar.
Se a cerâmica é algo que quer ver fazer e não apenas comprar, diga-nos quando nos escrever e incluímos a paragem na oficina no percurso.
Perguntas frequentes
Posso cozinhar num tagine comprado no souk?
Só se for um tagine de cozinha, que é liso e pesado em vez de pintado e brilhante. Pergunte expressamente. Cure-o antes da primeira utilização, cozinhe em lume brando e use difusor sobre gás.
A cerâmica marroquina é segura para comer?
As peças vendidas como próprias para alimentos ou sem chumbo são. Os vidrados tradicionais podem conter chumbo, o que importa sobretudo com comida ácida. Use as peças decorativas sem marcação para alimentos secos e decoração, e peça vidrado próprio se tenciona comer delas todos os dias.
Pode ir à máquina de lavar loiça?
Em geral não. Os vidrados pintados à mão perdem cor e gretam na máquina, e o ciclo de calor castiga o barro. Lave à mão.
Onde se compra a melhor cerâmica de Marrocos?
Fez para o azul e branco e para o zellige, Safi para peças coloridas de uso diário e a maior escolha, Tamegroute para o vidrado verde. Comprar na oficina fica mais barato do que na medina e ainda vê quem a fez.
Qual é a diferença entre zellige e azulejo normal?
O zellige é barro vidrado, cozido e depois cortado a cinzel à mão em peças geométricas montadas em mosaico. Os azulejos correntes são cortados ou moldados e estampados. A ligeira irregularidade do zellige é precisamente o que faz a superfície vibrar com a luz.




